quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!

E é bom preparar o riso! A conversa com Antônio Farnesi, publicada na edição nº5, não podia resumir-se ao espaço dedicado às entrevistas. O repertório deste ilustre e querido personagem serrano extrapola o limite das páginas do Ekos de Minas e traz mais contos a este espaço que ora se inaugura para contar histórias que não devem e não podem ser esquecidas! Prepare-se que lá vem história!

Quando fui sacristão (na época em que Dom Geraldo Vieria Gusmão era o pároco no Serro), o Padre me pediu que o ajudasse, porque muitas pessoas queriam se confessar antes da missa e isso estava atrasando a missa. Nisso, chegou uma senhora querendo se confessar, e eu falei: - Domingo passado foi o último que ele atendeu. Não atende mais porque está atrasando um pouco a missa. Ela insistiu, disse que precisava comungar. E eu falei: - Pode ser que seja uma coisa mais simples, e não tem problema. - Não é mesmo coisa complicada, não, ela respondeu. Domingo passado eu estava saindo para vir à missa e um compadre meu chegou, ficou num conversê e acabei perdendo a missa. Eu disse: - Absolutamente! A senhora pode comungar tranquilamente, porque na verdade a senhora pecou por não vir à missa, mas acontece que este pecado está nas costas deste que atrapalhou a senhora! A senhora, não. Pode rezar um Padre Nosso e uma Ave Maria e comungar tranquilamente!
Outra. Quando ajudava Dom Gusmão, muitas vezes íamos celebrar casamentos. Depois da celebração, eu falava: - Padre, o casal mandou falar com o senhor que a festinha é simples, mas conta com a presença do senhor e a minha também. Um dia, Adelmo Lessa (serrano, amigo de Antônio Farnesi e um bom personagem para o Ekos de Minas!) chegou para o Padre e falou: - O senhor sabe muito bem que está entrando numa gelada horrorosa. O Antônio Farnesi é descarado. Ele adora comer e beber e está levando o senhor em muito casamento que não foi convidado! Ele que se convida e leva o senhor, para aproveitar o carro. No próximo casamento, ajudei o Padre a tirar a túnica e a estola, e falei que estávamos convidados para a festa. Ele disse que não ia: - Adelmo falou comigo que o senhor está me levando nas casas sem ser convidado. Eu disse: - O que é isso seu Padre! É inveja de Adelmo! Conversa fiada de Adelmo! Mas não adiantou nada, o Padre não quis mais me acompanhar!



ARTIFÍCIO - Fotografia

Danilo Arnaldo Briskievicz
As flores e plantas serranas são uma mistura do local com o nacional e mundial. Há flores e plantas típicas da Mata Atlântica. Há flores e plantas que podem ter vindo de qualquer lugar do mundo. Entre plantas e flores nativas e trazidas no lombo do burro, depois de chegadas aos portos brasileiros em quatro séculos de história, os jardins serranos foram se constituindo numa arte própria. É uma profusão de cores que encanta os olhos de quem se dedica à fotografia. Ou mesmo àqueles que ficam boqueabertos com a quantidade de cores que habitam um simples jardim na porta de casa. Há os quintais repletos de figueiras, abacateiros, mangueiras, coqueiros, pessegueiros, jabuticabeiras. São tantas variedades espalhadas pela cidade!
Os bichos também são uma mistura inacreditável. Eles habitam os rios, as casas, as praças, os jardins. Em qualquer lugar pode-se achar o inusitado. Apesar de toda a devastação da Mata Atlântica ainda podem-se ver os bichos resistentes. Os cachorros serranos são um caso à parte: são os mais rústicos, os mais leais e os mais maltratados. Abandonados nas ruas incorporaram-se à paisagem urbana. Antes necessários para a caça, hoje são relegados a seres que tem vida própria e, claro, não tem. Os donos omissos permitem que eles reproduzam à vontade e sem controle da municipalidade. Com isso, vivem pouco. Mas dormem nas praças, na rodoviária, nas calçadas do comércio e das casas e são sempre simpáticos.
As cachoeiras sintetizam a beleza da flora e da fauna da região serrana. Ao visitar a Ponte de Pedra em Santo Antônio do Itambé a sensação é de uma volta no tempo. Água gelada que desce do Pico do Itambé e sustenta toda uma cadeia alimentar até chegar aos seres humanos. A quantidade de água que provem do Pico do Itambé é uma festa para a natureza durante todo o ano, mesmo na seca.
Publicamos esse trabalho com o título de Artifício para provocar a reflexão. Os jardins não são naturais: são invenção humana. Os bichos reproduzidos na cidade incorporaram-se ao dia a dia das pessoas. A cachoeira, hoje, é um ponto turístico. Então, o que há de natural? Tudo na relação do homem com a natureza é um Artifício para viver melhor.
Portanto, a fotografia é um artifício. É a ampliação do olhar. Convidamos você a olhar a natureza/humanidade nas fotografias realizadas no Serro e em Santo Antônio do Itambé de janeiro a julho de 2011.








DANILO ARNALDO BRISKIEVICZ

nasceu no Serro, Minas Gerais, em 1972. Filósofo, poeta, historiador e fotógrafo amador. Professor universitário dedica-se ao registro da história serrana através de livros impressos e em formato e-book que podem ser baixados gratuitamente no site do autor.

Artifícios - Fotografia - 2012
www.recantodasletras.com.br/e-livros/3445924

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Menina Branca também é gourmet!

Hummm!!! Esta é a melhor expressão para definir a requintada apresentação de sabores da 4º Edição do Cachaça Gourmet Belo Horizonte. A festa de lançamento foi realizada na Cozinha Modelo do Mercado Central, no dia 12 de dezembro, e reuniu uma competente seleção de restaurantes da capital. A cachaça de alambique é quem dá o tom e oferece charme à proposta gourmet, em perfeita harmonia com os sabores inusitados dos ingredientes, selecionados pelos chefs convidados, de efeito gastronômico, no mínimo, intenso.
E, claro, a Menina Branca estava lá para valorizar o Risoto Tonto, uma criação do Chef Anderson Salvador, do Café Club, com a colaboração da Chef Manu Assunção.
A rica iguaria poderá ser saboreada durante o Cachaça Gourmet, de 10 de janeiro a 10 de fevereiro de 2012, no Café Club, charmoso restaurante de BH, com a inebriante companhia da cachaça Menina Branca!

A Menina Branca é o ingrediente especial do Risoto Tonto, criação
do Chef Anderson Salvador, do Café Club

A Menina Branca posa para foto com grandes nomes da
gastronomia mineira, no lançamento do Cachaça Gourmet 2012:
Vinícius Salomão, restaurante Mané e Maria, Márcia Clementino
Nunes, do Dona Lucinha, e Murai Caetano, do Xico da Kafua

Dona Lucinha e Marcelo Machado, produtor da Menina
Branca, brindam o lançamento da Cachaça, no Restaurante
Dona Lucinha, em outubro deste ano

TEÓFILO OTTONI: HISTÓRIA QUE VEM DO SERRO!

Quem foi mesmo este Teófilo Ottoni? Deve ser importante porque tem até nome de cidade! É assim que o brasileiro comum costuma se referir à memória de seu país. E não é por desleixo, não, é pura luta pela sobrevivência. Conhecimento precisa de ócio. Não dá para conhecer sem ter tempo para escarafunchar livros, escritos, Internet e outros bichos. Tudo isso sem grana e depois de um dia daqueles, definitivamente não dá. Fica a cargo da escola transmitir o que não é possível experimentar espontaneamente... bom, já deu para entender porque muitas vezes existe um amplo desconhecimento dos fatos e histórias que rondam a singularidade brasileira.
Mas por que falar de Teófilo Ottoni? É bastante oportuno, já que no dia 28 de novembro deste ano foi realizada, no Serro, Minas Gerais, a cerimônia de entrega da Comenda Teófilo Ottoni a 30 brasileiros indicados em 2011 e outros quatro indicados em anos anteriores. Instituída pelo Governo de Minas em agosto de 2007 - ano em que foi comemorado o bicentenário de nascimento do libertário -,  a honraria presta homenagem a personalidades ou instituições que “contribuem com o desenvolvimento político, cultural, econômico e social das regiões dos Vales do Jequitinhonha, Mucuri, Norte e Nordeste de Minas”.
E por que Teófilo Ottoni? Para entender a sua importância no contexto nacional, é preciso primeiramente situá-lo historicamente. Theóphilo Benedicto Ottoni nasceu no Serro, em 27 de novembro de 1807, e faleceu, em 17 de outubro de 1869, no Rio de Janeiro. Em sua época, existiam dois partidos políticos no Brasil, o Conservador e o Liberal. Os conservadores defendiam a centralização do poder na figura do Imperador D. Pedro II, enquanto os liberais defendiam  a autoridade e o fortalecimento dos poderes das províncias e dos municípios, mais sensíveis às reivindicações populares. Teófilo Ottoni foi um dos líderes da Revolução Liberal de 1842, em Minas Gerais, derrotado em Santa Luzia  pelas tropas de Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias.
Discurso inflamado, pena afiada, escreveu para vários jornais e publicou o Sentinella do Serro, na linha do jornalista revolucionário Cipriano Barata. Em 1847, realiza a primeira viagem ao Vale do Rio Mucuri e funda a Companhia de Comércio e Navegação do Rio Mucuri, cujo objetivo principal era ligar o centro-oeste da Província de Minas Gerais ao litoral. Em 1853, iniciou o processo de exploração e colonização do Vale do Mucuri, fundando Filadélfia, hoje município de Teófilo Ottoni. Foi eleito algumas vezes para o Senado, mas somente conseguiu empossar-se senador depois de 1864, quando os liberais já contavam com a simpatia de Dom Pedro II. Nessa época, no entanto, já se encontrava cansado, sem recursos e com a saúde debilitada.
Está aí o porquê da Comenda Teófilo Ottoni e a relação dela com o Serro. A cerimônia foi presidida pela Secretária de Estado da Casa Civil e Relações Institucionais, Maria Coeli Simões Pires, no auditório da Pontifícia Universidade Católica, no Serro. A Secretária Maria Coeli, serrana agraciada com a medalha em 2007, ressaltou a importância da Comenda, criada com o objetivo principal de resgatar a memória do político e empreendedor Teófilo Ottoni. “Essa comenda faz justiça ao grande homem que foi Teófilo Ottoni e reacende a veia política não só dos serranos e também dos mineiros que se identificam com a bandeira da liberdade. Os homenageados estão comprometidos com a liberdade, os direitos fundamentais e o empreendedorismo”, ressaltou Dra. Maria Coeli, em seu pronunciamento.

Magda Mesquita Machado e Dr. Walter Machado

Entre os homenageados, importantes personalidades como Dr. Walter Machado, médico nascido em Piranguinho, no sul de Minas, que adotou o Serro como sua terra e há mais de 50 anos dedica seu talento profissional à região. Nesta longa trajetória, muitas famílias podem dizer que pais, filhos, netos e até bisnetos nasceram pelas mãos de Dr. Walter! Para arriscar um palpite, Dr. Walter estima que fez mais de cinco mil partos e incontáveis cirurgias apenas na Casa de Caridade Santa Tereza,  Hospital do Serro. Entre eles, os partos dos três filhos e de quatro dos cinco netos. “Esta homenagem me emociona pelo reconhecimento de um trabalho que realizei por amor à profissão”, aponta.
O juiz Márcio Idalmo entre suas ex-professoras,
Gracíola Terezinha Simões e Maria Isabel das Graças
de Almeida (E), e a mãe Maria da Conceição Santos

O Juiz Márcio Idalmo Santos Miranda, filho do Serro, também está entre os homenageados com a Comenda em 2011. Ele conta que, mesmo o destino tendo conduzido seus passos a outros horizontes, distantes das montanhas serranas, o Serro é a sua grande referência: “Os valores e princípios que recebemos em nossa terra nos guiam por toda a vida. Voltar às raízes serranas é sempre uma necessidade, uma busca de inspiração e de renovação de forças”.
Para o magistrado, a atuação de Teófilo Ottoni no cenário político nacional teve mais importância do que hoje se lhe atribui: “A Revolução Liberal de 1842, que o teve como líder, foi um dos embriões da República. Teófilo Ottoni, em seu discurso, em seus ideais e na sua prática de vida apregoava princípios republicanos. Foi um exemplo, para todos nós, como brasileiros. Foi alguém que nós, especialmente os serranos, devemos reverenciar sempre. Receber essa homenagem tem um significado ainda mais grandioso pelo vulto que a inspira”, completa. 

Os desembargadores Beatriz Caires e Tiago Pinto
A Desembargadora Maria Beatriz Madureira Pinheiro Costa Caires ressalta que a honraria a emociona como integrante do Poder Judiciário mineiro - juntamente com os Desembargadores Manuel Saramago e Tiago Pinto e o Juiz Márcio Idalmo - e também como uma homenagem às suas raízes serranas. “Tudo que é ligado ao Serro tem um significado muito especial para mim, toca o meu coração. Cresci ouvindo o hino do Serro ser cantado com orgulho nas reuniões familiares; me acostumei a ver a pintura da Igreja de Santa Rita na parede das salas das casas de meus avós, de meus pais e tias. Escutei as muitas histórias do povo Serrano, recheadas de religiosidade. A comenda significa um resgate destas raízes, da minha história, das famílias Silveira e Madureira Horta, que remonta ao patriarca Professor Madureira, meu bisavô, e a João Gabriel da Silveira Serrano, meu avô. Por tudo isto, só tenho a agradecer! Obrigada aos Serranos!”.
Duas instituições também foram homenageadas com a Comenda: o Jornal Estado de Minas e a Associação dos Produtores Artesanais de Queijo do Serro, entidade com sede no Serro que se dedica à valorização do queijo artesanal. O presidente da Apaqs, Jorge Brandão Simões, que representou a entidade na cerimônia, acredita que a Comenda valoriza não só o trabalho da Apaqs, mas o seguimento que ela representa: “É um reconhecimento do Governo do Estado pelo esforço dos produtores no processo de valorização do Queijo Minas Artesanal”.
Entre outras importantes personalidades, foram agraciados com a Comenda Teófilo Ottoni o empresário serrano Vicente Nunes Mourão; o Médico Veterinário Mendelssohn de Vasconcelos e a Capitã PM Tânia Augusta da Silva. A Capitã Tânia conta que ser homenageada com a medalha tem um significado especial, já que o Serro foi a primeira cidade em que teve a oportunidade de ocupar um posto de comando na Policia Militar de Minas Gerais. “Quando estava no Comando da 144ª CIA pedia sempre a Deus forças, nosso trabalho não é fácil, Ele me dava problemas. Pedia amor, e Ele me dava pessoas que me ajudaram. Aprendi muito e, com a graça de Deus, venci. Não recebi de Deus o que eu pedi, mas o que precisava”, agradece.

O homenageado Vicente Nunes Mourão, ao lado da
filha Ariadna Lemos Nunes de Moura e Silva, Maria
dos Anjos Brandão Simões e Jorge Brandão Simões

A Capitã Tânia foi Comandante da 144º
Companhia de Polícia Militar, no Serro

O Médico Veterinário Mendelssohn de Vasconcelos,
 filho do saudoso Newton Vasconcelos, foi um dos
agraciados com a Comenda em 2011

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!

“Terminal Rodoviário, passageiros, motoristas e trocadores, boa viagem, vai com Deus homem da alavanca” Assim este serrano, nascido em 28 de abril de 1958, convida os passageiros que partem em diferentes direções a encontrarem seu destino, sem deixar de brincar com os motoristas, que sempre têm um apelido inventado por ele e proclamado ao microfone. Com bom humor e gentileza ímpar, Antônio Farnesi coordena os rumos da Rodoviária do Serro, mas faz muito mais: presidente de Banda de Música, Sacristão e, acima de tudo, um sábio que conhece como ninguém a simplicidade da vida e a melhor maneira de agradar ao outro. Vive no Serro “os mesmos anos que tem de idade”. Conhece diversos lugares, já passeou muito, mas não sai do Serro para nada. “Aqui nasci, fui criado, enterrei meus pais e pretendo ir daqui para o cemitério”. Nesta edição, o Ekos de Minas apresenta um pequeno pedaço do universo repleto de alegria e sabedoria de vida de Antônio Farnesi, um serrano da gema que ama o Serro e a sua história como poucos e ensina em cada sorriso e boa prosa um pouco do segredo de bem viver. 

Lição de vida
A vida é o seguinte: se ela for só boa, pode ficar tranquilo que vai aparecer uma novidade qualquer. Se for só ruim, pode ficar com esperança, que amanhã vai dar certo. Aceito a vida como ela vier. Eu gosto sempre de me manter alegre e satisfeito. Sou muito bem humorado, faço de conta que não entendo as ofensas para não levá-las em consideração. Adoro levantar o astral de qualquer pessoa, adoro destacar a pessoa. A coisa mais triste do mundo é falar uma coisa desagradável. Não é tudo que a gente leva em consideração, principalmente no mundo em que vivemos, muita raiva, revolta. Levo a vida da melhor maneira possível. Um exemplo: um sujeito muito pobre, muito pobre mesmo, ao ponto de passar fome, morava perto da minha casa. Ele roubava banana no meu quintal, vendia para mim e eu comprava. Sabia de tudo. O que custa comprar minhas bananas para ajudá-lo? Ele precisa!

Infância
As nossas brincadeiras na época eram carrinho de direção, empinar pipa. Papai era muito caprichoso e fazia uns carrinhos lindos para mim. A gente descia nas laterais da escadaria da Santa Rita. Descia embalado, e quando queria parar vinha cavucando a terra. Papai tinha uma barbearia lá perto. Meu pai fazia tudo por mim, eu era filho único, ele me amava. Era um pai que, apesar de ser barbeiro, fazia tudo de madeira. Uma vez eu comecei a pirraçar porque queria um carrinho de direção. - Meu filho, não tem madeira! Insisti. E o que ele fez? Tirou uma porta da casa e a transformou em um carrinho para me satisfazer. Para o gosto dele, eu não tinha casado nunca. Nenhuma moça servia para ele. Nada que eu tivesse na cabeça de casar ou progredir na vida papai aceitava porque ele tinha medo de eu sair do Serro. Ele me travava em tudo!

Rodoviária
O Prefeito Dermeval Magalhães era muito amigo do meu pai e me conseguiu um emprego na Praça de Esportes. Quando cheguei lá me puseram para capinar. Nunca na minha vida eu tinha mexido com ferramenta nenhuma. Machuquei a mão toda. Falei: -Pai, eu não vou ficar não. - Por que meu filho? Me puseram para capinar e eu não estou aguentando. Papai falou com o Prefeito e ele disse: -Meu Deus, aquilo não é menino para capinar! E passou uma ordem que não era para eu pegar na enxada nem para carregar! Aí fiquei alegre demais! Depois fiz um curso de guarda bancário e fiquei oito anos no Banco Real. Quando o Banco fechou, quiseram me aproveitar fora, mas eu não quis. Então o Prefeito Waldemir Mesquita me retornou à Praça de Esportes. Um dia, Waldemir me pediu: -Amanhã vamos inaugurar a Rodoviária e preciso dos seus serviços. -Perfeitamente, respondi. Na inauguração da Rodoviária, peguei o microfone e comecei a dar partida nos ônibus, desejando boa viagem e tal. Waldemir então falou: -Você me agradou muito com a sua iniciativa, não volta mais para a Praça de Esportes, está aqui definitivo. Voltei na Praça de Esportes só para buscar meus teréns. Isso tem 32 anos.

Família
Ficamos eu, meu pai e minha mãe juntos a vida toda. Minha mãe faleceu de câncer, quando eu tinha uns 16 anos, e ficamos eu e meu pai. Um dia, meu pai morreu. Fiquei sozinho. Meu pai faleceu em 7 de janeiro e me casei em 20 de setembro do mesmo ano. Casei-me com Maria José aos 25 anos. Depois minha esposa apaixonou-se pelos Estados Unidos e quis mudar-se para lá. Desejei que fosse com Deus, porque do Serro não saio. Tenho três filhos maravilhosos. Minha caçula me liga duas, três vezes por dia. A outra me liga menos, mas nos falamos muito. Hoje, minha esposa vem ao Brasil e somos amigos, ela fica na minha casa, não desquitamos nem divorciamos, o que é dela é meu, o que é meu é dela e pronto acabou. Eu e meus irmãos - porque eu tive irmãos, mas morreram - fomos fabricados na mesma casa que os meus filhos! Onde nasci, meus filhos foram inventados.

Banda de Música e Procissão
Toda vida gostei muito de comer e beber. Nunca deixei de ser convidado para nada, graças a Deus. Sempre gostei e gosto até hoje de festa de aniversário, de casamento, de festas religiosas, principalmente as que tenham banda de música. Gostava muito de música, mas não consegui aprender um instrumento, pelejei, mas não consegui, então, resolvi apreciar. Fui sacristão de Igreja por quatro anos. Uma vez o Padre pediu que eu organizasse a procissão até ele chegar. E durante a procissão tem um momento para a Banda de Música, os cânticos e o terço. Para a Banda tocar mais, aproveitei que o Padre não estava lá e dei um aviso: -Nós vamos sair agora, o Padre deu ordem para sair, mas não vamos rezar o terço. Assim me obedeceram. O Padre chegou todo apavorado: -Gente, cadê o terço? Responderam: -Antônio Farnesi falou que não tem terço, não. O Padre: -Mas Antonio, como é que o senhor faz isso? Respondi: -Aproveitei que o senhor não estava e deixei o terço para depois, para a Banda tocar mais. Na época, o Padre era Dom Geraldo Vieira Gusmão, hoje ele é bispo e fui a Belo Horizonte para a sua celebração de 50 anos de ordenação sacerdotal recentemente.
Outra de procissão. Tinham uns apelidos aqui no Serro que não podiam ser falados que dava muito problema. Tinha um sujeito que toda procissão carregava o guião - pendão ou estandarte que vai à frente das procissões. E ele tinha o apelido de limonada. Quando a procissão passou perto do Ginásio, a molecada já sabia, e um gritou: -Água. Outro respondeu: -Limão! O outro gritou: -Açúcar! -Se “musturá” eu largo essa desgraça aqui! Num “mustura” não! E a desgraça era a cruz. E não é mistura, é “mustura”. O pessoal gostava de mexer com ele na procissão, porque na rua ele corria atrás dos outros, jogava pedra.

O que você faz pelo mundo? Eu faço muito!



“O que você faz pelo mundo? Eu faço muito. Eu o enfeito, alegro, transformo, respeito, amo, protejo, reescrevo, revoluciono, compreendo, valorizo! O que você faz pelo mundo? Eu faço travessuras, descobertas, experiências, brincadeiras. O que você é para o mundo? Eu sou tudo! Sou alegria, esperança, conforto, virtude, futuro, coragem, fé, perdão, inocência, genialidade, beleza. O que você faz pelo mundo? Faça como eu, seja exemplo! Faça como eu, construa a Paz!” Este convite à reflexão e à experiência de vivenciar a infância traduz a delicada perspectiva que conduz a linha pedagógica da Escola Municipal Infantil Teófilo Ottoni, situada no município do Serro, Minas Gerais.
Com quase 50 anos de existência e 13 de ensino municipal, a Escola hoje atende a 172 alunos, de 3 a 5 anos, com a oferta de formação pedagógica e humana, complementar a ação da família e da comunidade. A Escola valoriza o processo de socialização da criança e organiza seu dia a dia de forma a assegurar o desenvolvimento físico, emocional e intelectual dos pequenos alunos.
Por ela passaram gerações de serranos, hoje com formação superior, como o Engenheiro Civil Marcelo Mesquita Machado, aluno da escola na década de 1960. “O Jardim me ensinou o carinho e o respeito às grandes mestras, que se dedicavam à nossa formação como um complemento do que aprendíamos em nossas casas. Dona Verinha, Dona Ciúca... as nossas professoras foram todas um pouco nossas mães”, relembra Marcelo.
O farmacêutico e bioquímico Eduardo Cezar Reis Araújo, também ex-aluno da Escola, conta que muitas das suas amizades nasceram na época do ensino infantil: “O grande presente que recebemos em nossa passagem pelo Jardim é a possibilidade de amplo convívio social. Não existia distinção de classes, a gente aprendia a lidar com todo mundo”.
Eduardo e Marcelo repetem a receita com seus filhos. Mariana Araújo Figueiredo, filha de Eduardo, é ex-aluna, e Raphael Buarque Machado, filho de Marcelo, é aluno da Escola.
Eduardo e a filha Mariana são ex-alunos da Escola
Irmã Carvalho
A história desta Insituição de Ensino passa por muitos caminhos. Inaugurada, em 1965, pelo Governo de Minas, a Escola presta homenagem a Irmã Carvalho - irmã de caridade da ordem de São Vicente de Paula, que dedicou sua vida ao Serro - e recebe o nome de Escola Estadual Infantil Irmã Carvalho.
A professora aposentada Maria da Conceição Mesquita Horta, conhecida como Dona Ciúca, conta que Irmã Carvalho - que chegou ao Serro provavelmente no início do século XX, vinda de Portugal - teve decisiva participação na criação do Colégio Nossa Senhora da Conceição - que funcionou no Serro até 2007 - e da Casa de Caridade Santa Tereza - atual Hospital do Serro. “Irmã Carvalho iniciou o Colégio com a ajuda de professores voluntários e se dedicava pessoalmente aos enfermos do Hospital. Dizem que fazia milagre em vida”, conta Dona Ciúca, que foi diretora da Escola Infantil por sete anos, ainda na época que estava sob a responsabilidade do Estado.
Dona Ciúca se dedicou por 42 anos ao ensino e tem boas e felizes recordações das salas de aula. “Sinto-me realizada. Parei de trabalhar porque já era hora, mas gosto muito da minha profissão. Dar aulas nunca foi uma questão de sobrevivência, mas uma realização de vida”, relata.
D. Ciúca: amor e dedicação ao próximo

Municipalização
Em 1998, a Educação Infantil passa a ser responsabilidade dos municípios e uma jovem funcionaria pública municipal é convidada para cumprir a missão de providenciar a adaptação da escola estadual para municipal: Rita Irinéia do Nascimento Oliveira, diretora da Escola desde a sua municipalização. Prontamente Rita aceita o desafio, mas determina sua condição: “Eu escolho a minha equipe!”, propõe Rita.
Assim foi. Quinze jovens professoras, praticamente todas com experiência em escolas rurais, assumiram a Escola Infantil com o compromisso de manter o que já estava sendo realizado e aprimorar o que fosse possível. “Muitos não acreditaram que seríamos capazes de assumir a escola!”, lembra Simonia Aparecida dos Santos Silva, atualmente Supervisora e parte da equipe em 1978.
Mas a descrença deu lugar à competência e as 15 corajosas e persistentes educadoras construíram uma escola alicerçada no respeito à infância e na dedicação ao próximo. “As dificuldades ao contrário de nos abater, nos deram força”, conta Simonia autora do texto de abertura desta matéria.
Em 2011, depois de 13 anos de funcionamento em espaços improvisados, a Escola finalmente conquista um prédio próprio, construído nos moldes adequados para abrigar a fantasia e o amor necessários ao desenvolvimento de uma educação de qualidade. Na nova casa, a Escola passa a se chamar Escola Municipal Infantil Teófilo Ottoni segue os rumos de respeito e compreensão à infância para construir um futuro de Paz, como preconiza o verso de Simonia.
 Os pais de Chrismilly Santos Nascimento, que completou este ano a etapa de ensino infantil e é aluna da escola desde os três anos, apostam neste futuro. Valdemar do Nascimento Pereira e Natalice Ferreira dos Santos se declaram “super satisfeitos” com o trabalho que é realizado pela equipe da escola, com carinho e respeito ao desenvolvimento individual dos alunos, e dizem que a escola “superou suas expectativas”.
Natalice, Chrismilly e Valdemar: super satisfeitos

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SUA MAJESTADE, O QUEIJO DO SERRO!

O queijo é parte do imaginário de Minas Gerais. A majestade deste produto com cara e cheiro de Minas é mais uma vez o foco deste periódico, já que o Serro está, mais do que nunca, com a faca e o queijo nas mãos. Nas expressões, no cotidiano, nas conversas de esquina e, fundamentalmente, na mesa, o Queijo é a alma do Serro. A delicia desta iguaria encantou até ao cinema, com o recente lançamento do documentário político e poético de Helvécio Ratton, O Mineiro e o Queijo, filmado no Serro, Serra da Canastra e Alto Paranaíba.

O Filme apresenta o queijo minas artesanal como “um patrimônio ameaçado por leis anacrônicas e pelo lobby dos grandes laticínios” - www.omineiroeoqueijo.com.br. O documentário lança uma grande pergunta: Por que o Queijo Minas pode ser consumido pelos mineiros e não pode estar na mesa dos paulistas, cariocas e outros brasileiros?
Na tela, opiniões de produtores, pesquisadores e técnicos sobre os entraves na produção do verdadeiro queijo minas e o amor dos produtores ao oficio de criar arte gastronômica, como no depoimento de João Magno Pimenta, produtor de Alvorada de Minas que diz que  “o queijo é uma benção”.

Indicação Geográfica
Tradição, cultura, patrimônio, vida, paixão: o Queijo do Serro extrapola o limite conceitual de produto alimentício e econômico para ancorar-se na singular interpretação da cultura das Minas Gerais. “Aprendi a fazer queijo com o meu pai, que aprendeu com o meu avô. A minha família produz queijo, há gerações. Preservar o queijo é preservar a história da minha família, da minha cidade, da minha região”, destaca o produtor de Alvorada de Minas, José Daniel dos Santos Pimenta.

Paulo Levi e Marilac: tradição veio com o casamento
A família de Paulo Levi é uníssona na declaração de que fazer Queijo é uma arte e uma paixão. A tradição queijeira veio com a esposa, Luiza Marilac Mesquita Nunes, que recebeu do pai a “receita” para manter a história, há 40 anos. “Se eu for à roça e não passar no quarto de queijo, eu não fui à roça”, conta Marilac.
E este tradicional fazer queijeiro na região do Serro, que engloba 11 municípios, tem agora uma importante ferramenta para garantir qualidade, proteção, tradição e valor ao produto. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) aprovou o pedido da Associação dos Produtores Artesanais do Queijo Serro (Apaqs), de Indicação Geográfica (IG) para o tipo de queijo artesanal fabricado nesta área do Estado. O reconhecimento, da espécie Indicação de Procedência (IP), foi publicado, em 27 de setembro de 2011, na  Revista da Propriedade Industrial, órgão oficial do Instituto.
A Indicação Geográfica - de acordo com o INPI, órgão vinculado ao Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - é uma garantia quanto a origem de um produto e/ou suas qualidades e características regionais. Segundo Jorge Brandão Simões, presidente da Apaqs, que representa 80 produtores de queijo, o controle vai ser realizado a partir de um selo aplicado ao produto que cumpre as características indicadas pela Associação. “A Indicação Geográfica é um instrumento de base legal para resguardar e proteger o Queijo do Serro contra falsificações”, ressalta.
O selo ainda vai valorizar o investimento das queijarias da região em manter as boas práticas de produção, com segurança alimentar, e amparadas na legislação sanitária vigente. Jorge informa que vai receber o selo o produtor registrado que seguir o Caderno de Normas da Apaqs, formatado a partir de reuniões com os produtores locais, que determina uma receita padrão para o Queijo do Serro. “Elegemos, com os produtores, um padrão para apresentar o nosso produto, com indicação de peso médio, altura e diâmetro ideal, e porcentagem de ingredientes - pingo e sal”, explica Jorge. “Temos a ferramenta para preservar o verdadeiro queijo artesanal do Serro e valorizar a cultura da região”, argumenta.

Comercialização
A Cooperativa dos Produtores Rurais do Serro aprova a iniciativa de proteção do patrimônio, mas ressalta que o cumprimento das normas sanitárias é a principal preocupação hoje dos produtores. “O Queijo do Serro é uma marca forte. A certificação dos produtores e a marca da Cooperativa já promovem uma diferenciação do produto. Acredito que a delimitação geográfica vai amparar as ações de combate à falsificação do queijo”, aponta Carlos da Silveira Dumont, presidente da entidade.
O presidente ressalta que a Cooperativa já está se preparando para ampliar o mercado de Queijo do Serro para o Brasil, com o apoio do Governo do Estado, a partir da proposta de que a fiscalização em Minas Gerais seja o parâmetro de avaliação do queijo em outros estados brasileiros. “O nosso caminho é via Estado. Esperamos um acordo entre o IMA  e o Ministério da Agricultura para que a inspeção estadual tenha valor na aprovação do queijo nacionalmente”, explica.
E a Cooperativa já planeja a adaptação do seu espaço físico para acompanhar a ampliação da demanda. “Estamos trabalhando para construir uma fábrica nova e transformar o espaço da atual em um belo entreposto de recepção de queijo artesanal”, vislumbra Carlos, que aposta na ampliação da capacidade de recepção de leite - de 15 para 120 mil litros/dia - e de queijo artesanal para poder atender a um número maior de cooperados  - hoje, são 62 produtores associados. 

Festa do Queijo
Na palavra de muitos produtores de leite e queijo do Serro e região, a 27ª edição da Festa do Queijo foi a melhor dos últimos anos. A Festa ampliou o foco no produtor, com muitas novidades, como a premiação do torneio leiteiro,  que teve a participação de 40 animais, e apresentou genética de ponta; a montagem de um ponto de apoio ao produtor, com degustação de petiscos do Festival de Tira-gosto de São Gonçalo do Rio das Pedras. “A Festa tem quatro pilares: cultural, econômico, político e social. Para nós produtores, o que importa é a parte econômica. Este ano avançamos muito. O nosso foco é desenvolver um evento realmente voltado para a agropecuária”, aposta o Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais do Serro,  Roberto de Castro Teixeira.
Já a Secretária Municipal de Agricultura e Pecuária, Silvana Aline Dumont Hallack, acredita que a Festa e o próprio Queijo do Serro têm tudo para alcançar destaque nacional e internacional, mas é preciso que os setores envolvidos trabalhem na mesma direção: “sabemos o que queremos e o que devemos fazer para alcançar nossos objetivos, mas é preciso que todos os envolvidos no processo de valorização do Queijo estejam integrados e direcionem seus esforços”.
A tradicional cavalgada desfilou pelas ruas, convidando a população a participar da Festa com mais de 300 cavaleiros. O concurso de marcha também  foi um sucesso apesar da decisão tardia em realizá-lo, segundo o Diretor de Eventos do Clube do Cavalo, Rafael Gomes Nunes. “Antes da festa houve uma discussão sobre se o Concurso de Marcha deveria ou não ser realizado, isso atrapalhou a organização, mas tivemos mais de cem inscrições”, indica Rafael.

Leilão Leiteiro
Outra novidade este ano, foi a realização de leilão de gado leiteiro, que movimentou cerca de R$400 mil em potencial de negócios, segundo dados do  Sindicato. “O Serro já tem genética de qualidade para competir em qualquer leilão, não precisamos buscar vacas em outras regiões para apresentar”, comemora Roberto de Castro.

Roberto Teixeira (E) e a equipe do Sindicato - foto PMS

Os leilões foram organizados pelo Núcleo de Criadores e Melhoradores de Bovinos do Serro e Região, um grupo formado por onze produtores de leite e queijo para valorizar e desenvolver a genética bovina leiteira na região. “O custo de levar um animal ao Parque de Exposições é alto. O leilão é uma forma de gerar receita para estimular a apresentação dos animais”, explica Moises Antônio Barbosa, Vice-Presidente do Núcleo.
O tradicional Concurso Regional de Queijo do Serro elegeu o sabor de Alvorada de Minas, com o produtor João Valter de Miranda, que conquistou os jurados no aspecto global, cor, textura, consistência, aroma e sabor. E o segredo desta iguaria João Valter resume em uma frase: “produzir Queijo do Serro para mim é uma arte!”.
Jorge Simões e Silvana Dumont entregam o troféu de campeão no Concurso de Queijo Regional a João Valter (E)
O Presidente do Núcleo de Criadores, Ailton Aparecido de Lacerda, entrega premiação do Torneio Leiteiro ao produtor Walter Machado Junior, que ganhou o primeiro lugar na categoria 1/2HPB, com a vaca Itambé - segunda colocada na classificação geral, com a produção de 108,5kg de leite em 2 dias - foto PMS

DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

Ari Gonçalves de Almeida sempre percebeu o que estava a sua volta com olhos curiosos e afoitos de quem de tudo quer participar. Muito jovem já se dedicava aos destinos da Juventude Operaria Católica. Ajudou também a definir rumos no Sindicato dos Professores (Sindiute) e no Partido dos Trabalhadores (PT). A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos é objeto de estudo e dedicação deste filho devoto, que não perde uma manifestação, seja no Serro, onde é Presidente da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, em Belo Horizonte, onde mora,  ou em qualquer outra cidade que seja possível chegar! Esse mineiro de João Pinheiro, cidade do noroeste do Estado, vive em BH desde os 10 anos de idade. Licenciado em filosofia pela UFMG, Ari se aposentou como professor de historia, e ainda deu sua contribuição ao acervo da Imprensa Oficial, com matérias e reportagens ricas em detalhes e pesquisa ampla, publicadas no jornal Minas Gerais. Desta época, Ari Gonçalves conserva uma reportagem que fez, em julho de 1991, sobre o sino “sem torre” da Igreja do Rosário.

Como o Sr. entrou para a Irmandade?
Vim ao Serro pela primeira vez, há uns trintas anos, para participar de um Carnaval. Gostei muito da Festa e me falaram: “Você vai gostar é de uma festa que tem aqui no mês de julho”. Foi meu primeiro contato com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, e no segundo ano em que participei da Festa, entrei para a Irmandade. Fui festeiro, primeiro Juiz, Rei duas vezes e Mordomo do Mastro. Então fui aprofundando minha relação com a Irmandade e me interessando por tudo o que diz respeito ao Congado e à cultura negra que, já me atraia muito, pela minha própria condição de negro. Até que fui lançado candidato para Presidente. Já estamos no segundo mandato.

Por que a Irmandade do Rosário no Serro?
O que me encanta na Festa do Rosário do Serro é sua característica de profunda fé. Isso me impressiona. Impressiona como Nossa Senhora do Rosário consegue chegar ao coração das pessoas. É também uma festa muito rica em colorido, música, dança. Foge aos padrões tradicionais de uma festa religiosa. Não é uma festa comportada. Eu costumo até dizer que se durante a Festa do Rosário não tiver uma bagunçazinha, não é Festa do Rosário. Uma briga entre congadeiros, confusão na hora de servir almoço na casa de festeiro. É uma festa que foge aos padrões normais de uma festa religiosa, sem deixar de ser uma festa religiosa.  Tem um terceiro aspecto que me liga a Irmandade do Rosário do Serro, que é seu aspecto histórico, conservado a partir da tradição oral. É uma tradição que passa de pai para filho. Este aspecto me interessa também pela minha condição de homem ligado à história. 

O que significa para o Senhor estar como Presidente da Irmandade?
Temos uma responsabilidade muito grande de preservar todo o patrimônio material, espiritual e cultural da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Temos que estabelecer frentes diferentes de atenção. Atenção para o patrimônio material que precisa ser preservado, a nossa Igreja, Cemitério, as imagens. Outra preocupação é manter a Irmandade atual, presente no mundo moderno, mas sem perder suas raízes históricas e as suas referencias tradicionais. Por exemplo, chamamos nossa Assembléia Geral de Mesa do Rosário, e era como se falava em 1728. Ainda elegemos os nossos festeiros como os escravos elegiam. Eles não sabiam escrever, ler, fazer uma cédula, assim, eles estabeleceram a votação por meio de grãos. Cada candidato é votado com um grão diferente, que contamos para saber quem foi o vencedor da disputa. O terceiro desafio é estar atento às possibilidades que o mundo da cultura oferece às instituições - quando falo mundo da cultura, refiro-me ao Ministério da Cultura, Secretarias de Cultura. É preciso estar atento ao que estes órgãos podem nos oferecer para realizar as obras e os anseios da Irmandade.

E a Torre Sineira, como foi esta realização?
Quando entrei para a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, vi um sino no chão da Igreja e procurei saber por que ele estava ali. Este sino tem uma longa historia. Ele é de 1810, foi fundido aqui no Serro e pertenceu a uma torre que nossa Igreja teve na lateral esquerda. Esta torre ruiu e toda a Igreja estava em péssimas condições. O presidente da Irmandade, na época, reuniu uma comissão para restaurar a Igreja, mas não havia recursos financeiros. Então venderam o sino para custear as obras. Um dia - é uma historia que quero confirmar - Zé de Fina (José Mourão), que foi irmão do Rosário por muito tempo, descobriu este sino em Belo Horizonte, pelo seu som. Ele passou pelo bairro da Graça, ouviu um sino batendo e disse: “este sino é do Serro. Eu lembro deste sino quando era menino”. Com a descoberta, iniciou-se um movimento para o resgate do sino. O sino retornou para o Serro e então começou uma outra etapa desta historia. Uma discussão entre a Irmandade e o IPHAN sobre como seria construída a torre para o sino. A Irmandade queria a reconstrução da torre original e o IPHAN dizia que não. Passaram-se três, quatro anos até que a Irmandade aceitasse a proposta do IPHAN, mas a Irmandade não teve recursos para construir a torre. Quando assumi a presidência, decidimos fazer um projeto para captar recursos no Fundo Estadual de Cultura, que foi aprovado. Mas tivemos que fazer outro projeto arquitetônico porque o IPHAN não aceitou a planta que a própria instituição havia feito há 30, 40 anos. Depois de muita discussão, inauguramos a nossa torre sineira, em setembro deste ano, em uma cerimônia emocionada.