terça-feira, 6 de novembro de 2012

A primeira Festa que Ildeu Rabelo (foto acima) participou foi aos sete anos. Levado pelo avô Jacinto Barão, Dedeu - como é conhecido -  foi Marujo. “Cantava muito e fazia a Rezinga. É até bonito. Hoje ninguém faz isso mais. Antigamente Caboclo e Marujo não acertava de jeito nenhum. Coisa de dança mesmo. Depois que passei a Caboclo e dançava Marujo, a gente vira outra pessoa. Tenho minha espada, mas não posso manejar ela”, conta Dedeu.  Hoje, 70 anos depois, Dedeu passou o capacete para o filho Roberto Rabelo (foto abaixo), mas participa ativamente da Festa. “Agora estou muito velho, a saúde não permite mais. A força, é só pedir a Nossa Senhora”, agradece.  O filho Roberto diz que Dedeu “já era Caboclo e tentava ser Marujo, mas não dava certo. Se pegar a espada... Nossa Senhora! Meu pai sempre foi Caboclo. O Caboclo encarna Caboclo. A gente nasce Caboclo”.



Dona Stael Farnezi Silva sempre participa dos preparativos da Festa quando a família ou amigos são festeiros: “Sou muito ligada a esta Festa. Só de saber que a gente vai alcançar uma graça muito grande, vale tudo. Já fui 1ª Juíza e Rainha com o meu filho (Renato Amilton da Silva). A devoção do meu marido era tão grande que ele fez um Rosário, que hoje fica em destaque na Igreja. Vocês nem imaginam quantas graças já alcançamos com Nossa Senhora”.


Maria de Fátima Pacheco da Silva participa da Festa, há 20 anos, sempre que alguém da família é festeiro ela está pronta para ajudar na preparação. “A festa é muito pesada, tem que fazer muita coisa, e a gente faz tudo sem saber para quantas pessoas. A gente sempre calcula para muita gente, umas duas mil pessoas. Fiquei muito feliz de ser festeira. Nossa Senhora ajuda a gente muito”. Este ano, foi segunda juíza, ao lado do filho Alex Reginaldo da Silva, que foi segundo juiz: “A sensação de dever cumprido depois da Festa traz muita alegria”.


Omar José dos Santos  não nasceu no Serro, mas encontrou na Festa a sua devoção a Nossa Senhora do Rosário: “Nossa Senhora do Rosário está no coração e no sangue. Sou caboclo há 30 anos. Eu vim uma vez aqui e nunca mais deixei de dançar. A gente sempre dá um jeito de vir”. 

“Vou dançar tão bonito para Nossa Senhora, que Ela vai até chorar”. Esta frase é de um pequeno caboclinho de Nossa Senhora do Rosário, Pedro Henrique Rabelo Paulista, de apenas 5 anos. Segundo a avó Alice Rabelo, esposa de Ildeu Rabelo, ele é o bisneto do lendário caboclo José Rabelo que deve herdar a flecha do ancestral. 

A Rainha Rosilene Rabelo conta que para organizar a Festa é preciso “muita luta. É luta, mas com esta luta, estou muito feliz. A gente fica preocupada demais, para tudo dar certo. É uma coisa de coração, não tem como explicar. É uma lição de vida. Já vi muita coisa, tenho mais de 40 anos de Festa, comecei a participar com sete anos. Sem a união da família e dos amigos, não tem Festa. As mulheres na Festa do Rosário são tudo. Os homens vão fazer o bonito que é dançar e mostrar o que é o Congado da Festa do Serro, mas as mulheres é que fazem tudo: cozinhar, cuidar, limpar, organizar”.
Joviano Roberto Pedro da Costa é neto de Vicente Violeiro, que foi chefe dos Catopês, e filho de Maria da Conceição Alves Costa, a Maria Boneca. Ele já acompanhava os Catopês aos quatro anos de idade, ao lado da mãe. Depois foi Marujo por três anos e resolveu que era Caboclo. Este ano experimentou ser Rei do Rosário em homenagem à sua mãe: “Deus quis levar ela e eu cumpri com o compromisso de minha mãe”. 

A 1ª Juíza este ano, Rosimere Margarida da Silva, filha de Dona Stael, conta que a devoção a Nossa Senhora do Rosário “é uma fé que vem dos avós, e passou para os pais e a gente vem seguindo. A gente faz isto mesmo pela fé. Quando a gente não vem para a Festa, parece que o ano não passou. O ano inteiro o nosso pensamento está voltado para a Festa, em maio já estamos nos preparando para vir. É uma tradição histórica, mas também de família, se as famílias não se envolvessem não haveria prosseguimento. A comunhão da Festa também ajuda na união da família e mesmo dos amigos. Este ano tive a oportunidade de fazer a Festa pela primeira vez, para agradecer a uma graça alcançada. São muitas bênçãos. Não daria mesmo para descrever”.


Rosana Rabelo (à direita), filha de Ildeu Rabelo, conta que este ano reformou a roupa do Caboclo José Rabelo para o seu pai: “Montei a roupa do meu avô todinha e pus meu pai bonito. Ele ficou tão feliz com a roupa dele. E passou a roupa dele para o filho, Roberto. É uma tradição, um vai passando para o outro”.
Sônia Martins Rabelo (à esquerda), esposa do Caboclo Marcos Rabelo, é a responsável pelas roupas e alimentação do marido, três filhos e três netos, que são Caboclos de Nossa Senhora do Rosário. “Faço a roupa do marido, dos filhos e dos netos, todo ano. A cozinha também é nossa. É muita fé, carinho, alegria para dar conta de tudo. Não posso faltar, tenho que vir, para ajudar os meninos a se vestirem, preparar comida para eles saírem”.

A neta de Efigênio Augusto da Silva, que foi fundador e Presidente da Associação de Congados da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, Roselane Andrea da Silva acredita que “os meninos parece que já nascem sabendo dançar, já nascem Caboclo. Todo ano a gente vem para a Festa, cai na lida do fazer. Se falhar a gente perde o rumo. Nossa Senhora do Rosário é que nos guia. Minha filha perguntou: - Mamãe, mas a Rainha também trabalha? É a que mais trabalha, Rainha que não trabalha é a do conto de fadas”.
Maria de Lourdes Silva, conhecida como Dona Cesárea, vivencia a tradição do Rosário há mais 50 anos. “Eu sempre acompanhava a Festa, mas não dançava. Agora tá com 20 anos que sou a Rainha do Congado. Nossa função é agradecer as mesas e organizar os Catopês na rua. A festa para mim é uma emoção, é muita paixão, muito amor que eu sinto. Quando eu entro na Igreja que eu canto, eu não sei... Se houver céu, estou entrando no Céu. Eu olho para Ela e parece que Ela está olhando para mim e rindo. É a única Festa que eu vou, que eu canto e tenho prazer, aquela alegria toda. Tenho muita paixão com os Catopês. Meu marido morreu na Festa, meu filho morreu na Festa. Meu marido dançou - a Festa ainda era dia 29 de julho - e no dia 30 ele adoeceu e não voltou mais para o segundo reinado. Quando foi dia 9 de setembro, ele morreu. Meu filho, a mesma coisa, dançou, fez 49 anos no dia 30 de julho, acabou a Festa, morreu 15 dias depois da Festa. Eu nasci nesta Festa e vou morrer na Festa, se Deus quiser”.

Florita Dias de Andrade, já passou dos cem anos e quase não sai mais de sua casa, mas não pode perder as celebrações da Festa de Nossa Senhora do Rosário. Segundo sua neta, Rosilda Dias Pereira, ela sempre escolhe um dos netos para levá-la e não adianta fugir do compromisso, o escolhido é o único que ela permite acompanhá-la. “Minha avó é devota de Nossa Senhora e acredita muito no poder da Santa, como a maioria das pessoas mais idosas, que tem uma fé muito grande. Quando ela morava na roça, era a única festa que a trazia à cidade”, conta Rosilda.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

VILA NANINHA E SALA VERDE: HISTÓRIAS DA RUA DIREITA


O Serro guarda recantos, aguarda encantos, sublimes momentos. Basta a paciência de percorrer suas inusitadas vielas e permitir o encontro, a prosa, esquecer o tempo. Em uma das pequenas incursões pelas histórias e personagens serranos, as curvas de nível da Rua Direita apresentaram a “Vila Naninha”. Inusitada inscrição na cimalha de imponente e delicada fachada de uma das casas que acompanha o desenho da rua.
Eis que estava entre uma observação e outra o Senhor Geraldo de Miranda Nunes (conhecido no Serro como Seu Didi), comandando as intervenções na Vila Naninha, atento a cada detalhe dos recortes de madeira, às argamassas e tijolos, às cores e detalhes. Finda a árdua seleção de necessidades e caprichos, ergue-se novamente formosa a Vila dedicada a Naninha.
Primeira pergunta: Por que Vila Naninha? Gentilmente, como sempre sorriso e gentileza única, explica Seu Didi que o antigo proprietário bordou o nome da esposa na casa para que esta fosse a última entre as tantas já percorridas pelo casal no Serro, já que ela não se contentava com nenhum dos imóveis antes habitados por eles. Conta ainda que a esposa, vendo o seu nome gravado na parede da frente e bem visível, se apaixonou pela casa e nunca mais quis sair dela. O seu nome era Naninha.
Bastou este breve intróito para que mais um encontro fosse marcado.  Desta feita, com a delicada presença e sutil encanto de Maria Celina Silva Nunes, esposa de Seu Didi. Dona Celina conhece as possibilidades e limites da Vila como ninguém. Há 79 anos a casa guarda a memória da historia de D. Celina e sua família, que para lá se mudou aos cinco anos de idade e ali viveu até que a “Sala Verde” determinou seu destino.
Sala Verde? Esta é outra interessante história que a Vila Naninha guarda. Seu Geraldo conta que a Sala Verde é uma tradição de família: “O casal que é namorado ou noivo que entra aqui, se casa. Fomos os primeiros que entramos aqui noivos e nos casamos”. E desde aquele dia em que o Senhor Benjamim Brandão Nunes, pai de Seu Geraldo, pediu a mão de Dona Celina ao Senhor Francisco de Moura e Silva, passaram-se 65 anos, 8 filhos, 22 netos e 15 bisnetos! “Eu tinha 22 anos e Celina, 19 quando nos casamos. E isto depois de sete anos de namoro e noivado”, sorri Seu Geraldo. “Temos uma bisneta de 18 anos”, sorri Dona Celina. O amor resiste ao tempo, ultrapassa a vida e dignifica o mundo. E esta história só está começando.







“DE BAIXO”


Feiz Nagib Bahmed -  www.feiznb.com.br

“As palavras, como os homens, são seres vivos. Nascem, crescem e algumas morrem.” [Prof. Luciano Oliveira]

Ainda na primeira metade do século XX, e, certamente, nos passados anos, era comum ouvir-se nas cidades antigas de Minas Gerais, como Serro, Diamantina e outras, a expressão “de baixo”, como sinônimo de “estrangeiro”, ou “importado” – em relação a produtos.
Assim, um doce enlatado provindo de Portugal ganhava em Minas o nome de “doce de baixo”. Sim, visto das alturas de Minas, tudo o que viesse do exterior, naturalmente por mar, partia de um porto, Rio, Santos ou outros – todos, obviamente, postos geograficamente abaixo do chão mineiro. Justificada estaria então a expressão como uma espécie de apócope da locução “de baixo para cima”, sem que isso denotasse necessariamente uma condição de inferioridade do dito produto.
Fato é que um biscoito francês – assim como outros tantos produtos importados – era denominado “biscoito de baixo”, ganhando, àquele tempo, a adjetivação de “biscoito importado”, com o que se sofisticava o produto, em detrimento dos nossos então caipiras…
Nenhum dicionário, dos muitos que vimos – nem mesmo o histórico “Dicionário de usos do Português do Brasil”, de Francisco Borba – anota a expressão, que, com o tempo, morreu. Os dicionaristas registram apenas o advérbio “debaixo” para identificar “posição verticalmente inferior” ou “condição de inferioridade”; mas a expressão adjetiva “de baixo” estará registrada, com certeza, nos escritos populares da época.

DONA LOURDES: SABEDORIA E SOLIDARIEDADE


O Ekos de Minas presta homenagem a Maria de Lourdes Moreira Pires, Dona Lourdes Pires, uma serrana nascida em Sabinópolis, que doou ao Serro seu carinho e conhecimentos a um sem fim de alunos das Escolas João Nepomuceno e João Pinheiro - nesta última D. Lourdes era diretora quando se aposentou em 1980. A primeira escola foi no Pasto do Padilha, onde trabalhou por três meses.
Sentada à máquina, Dona Lourdes não mede esforços para a solidariedade! Em campanhas que ela mesma organiza e realiza pessoalmente, garantiu troca de rouparia da Casa de Caridade do Serro, com a confecção de lençóis para abastecer o Hospital. Casas, já construiu muitas, em campanhas realizadas na cidade, com projetos que ela mesma rabiscava e realizava.
Hoje, guiada pelo Pico do Itambé, com a resolução inocente das crianças que pretendem alçar grandes vôos, aos 90 anos, Dona Lourdes reúne biografias para editar uma publicação que pretende preservar a memória de serranos que marcaram a história do país, como João Pinheiro e Theóphilo Ottoni, e mesmo aqueles que deixaram sua pegada apenas nas terras férteis do Serro. Anda ela com seus escritos, ideias e personagens a percorrer vastos caminhos, que remetem ao Serro do frio e da modernidade, desvendando vidas e fazeres para apresentar às gerações serranas o seu legado humano. Com voz mansa e firme, olhar simpático e sorriso fácil, Dona Lourdes pede apenas um breve relato da história de cada um, um pouco dos caminhos trilhados, para compor o livro, que já tem nome e sobrenome: Anotações Biográficas - Valores do Serro.


SERRO: PAISAGEM INTERFERE NO TEMPO

O Serro de tantos, com suas nuances, amores, cores, romances e negações segue tal qual o tempo determinou, com os desígnios incontestáveis de seus casarões, igrejas e ruas históricas. Este Serro fincado em seus mais de trezentos anos resiste aos encantos do progresso e mergulha adormecido nas glórias e conquistas passadas. Exceto por brandas interferências – uma casa ali, um muro acolá – e pela fome devastadora das periferias, que insiste em determinar o fim das populações rurais, o Serro permanece estático, assim como sua memória deve conservá-lo. Para avivar e confirmar as lembranças, o Ekos de Minas publica o Serro, imagem congelada no tempo, preta e branca, branca e preta, presente, instantes, inexiste, se confirma, no tempo.






quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ENSAIO SOBRE AS TROPAS: UM COMEÇO DE CONVERSA

Maíra Buarque e Sônia Nunes Mesquita

No encalço das histórias e memórias da região, o Ekos de Minas alcança as tropas e caminha ao lado de tropeiros e tropeços para lançar loas, desconstruir fatos e compor, à moda das lembranças, essa inequívoca homenagem aos homens do futuro, que carregaram sonhos e desejos, nas trilhas e rumos das Minas Gerais e do Brasil. Aqui, abre-se um apêndice das infinitas possibilidades das vidas e acasos das “marchas” que delimitavam os dias e duravam a eternidade do tempo, no ritmo das tropas e dos passos da humanidade.
Esta conversa apresenta as impressões de Mário Andrade dos Santos, tropeiro já falecido, que se por aqui estivesse teria 97 anos recém alcançados, no dia 1º de fevereiro. A entrevista com este personagem - realizada no dia 25 de julho de 2001 - é um presente dos arquivos de Sônia Nunes Mesquita, que permitem à memória e reflexão a abstrata sensação de vivenciar o intangível.
A percepção dos fatos começa sempre pela estrada a se percorrer. Um caminho empoeirado revela capítulos esquecidos das páginas da vida, uma paisagem de sonhos e de eternas lembranças, e registra Mário Andrade dos Santos, ex-tropeiro, um entre tantos desbravadores de dificuldades e caminhos, que contam o tropeirismo com a mesma emoção que se admira o brilho de um diamante na bateia. Ele explica que a tropa era composta por lotes, formados por, em média, dez burros e um cavalo madrinha. Acompanhavam a tropa (que poderia ter um ou mais lotes) o arrieiro, o cozinheiro e o tocador. A cada dia de viagem dava-se o nome de marcha; às grandes bolsas que levavam a carga, bruaca; e aos apetrechos utilizados no arreamento: cangalha, retranca, capa, cilha, cabresto, peitoral, jacás, rabicho. “No tempo dos tropeiros a vida era muito boa. A gente saía pelo interiorzão de Minas, em tropas grandes, levando feijão, “goma”, queijo e recados para o povo que vivia distante. Depois veio o carro e as tropas sumiram”, contou em entrevista o velho tropeiro.

No dia 27 de julho de 2001, foi a vez de conhecer João Emílio Pereira, ex-tropeiro como Mário, que só não levou toda a sua história quando faleceu, porque em um antigo disquete, Sônia Nunes Mesquita reservou impressões e sentimentos deste serrano, que já cruzou com onças, cobras e todo tipo de susto que reservavam as viagens com a tropa. De todas as regiões por onde passou, Curvelo é a que lhe traz as melhores recordações. Lembra das festas de São Geraldo, que participava com fervor das celebrações. O produto que levava para esta região era o café. Trazia caixas de cerveja, farinha de trigo, latas de querosene, açúcar e sal para o Serro.

E a história continua com Sebastião Ribeiro da Silva (à esquerda), hoje com 82 anos e muitas saudades das tropas. Sebastião conta que “puxava” milho, areia, tijolo “para estas casas todas aqui do Serro”. Com o pedreiro José Rabelo (chefe de caboclos de Nossa Senhora do Rosário do Serro, já falecido. Uma boa história para se contar!), Sebastião lembra que ajudou a construir a casa nº 26, da Rua Nagib Bahmed, no Serro, hoje residência da família de Walderes Ribeiro Miranda: “puxei o tijolo quase todo para construir esta casa”. Saudosista, Sebastião revive os bons tempos das tropas: “Quando viajávamos em direção a Diamantina, passávamos por um lugar que tinha muita lenha. Eu montava no cavalo que madrinhava a tropa e cortava feixes de lenha para colocar nos burros que já tínhamos vendido a carga deles. Chegávamos em Diamantina de manhã cedo, 5, 6 horas. Lá não tinha fogão a gás, então vendíamos os feixes de lenha, por 200 réis, o menor, e 400 réis, o maior. Com o dinheiro comprávamos pão quentinho!”.
Geraldo Azevedo Freire, no livro “Caminhos da Memória”, descreve o Mercado Municipal do Serro, no início do século XX, como “o ponto de maior movimento da cidade, das cinco horas da manhã até pelas seis horas da tarde! Durante o dia, era intenso o movimento na Cavalhada e por toda a rua, segundo creio, hoje denominada Antônio Honório Pires. Grande parte da praça, bem em frente ao Carmo, era o Carregador do Mercado, com inúmeras estacas onde se amarravam os animais. De segunda a sexta-feira, de manhã à tarde, chegavam e saíam os lotes, uns após os outros, naquele mesmo ritmo tranquilo e conformado dos que vão enfrentar grandes jornadas! (...)
(...) Em fins de 1929, o Mercado se mudou para a Praça Ângelo Miranda, indo se instalar no prédio novo, construído para tal finalidade - umas quatro vezes o tamanho do de lá da Cavalhada. (...) Até 1937, (...) era ainda significativo o movimento de tropas na vida da cidade e da região. Justamente àquela época, começou o roncar dos motores dos caminhões a sufocar, nas nossas estradas de eras coloniais, o relinchar tristonho e resfolegar ritmado dos penitentes burros e bestas dos nossos lotes!... O nascer das toneladas e o desaparecer dos quilos; o silenciar dos guizos e o despertar das buzinas; as patas pelas rodas; o tropeiro pelo motorista!”
Nos caminhos da memória, o Ekos percorre as histórias que narram vidas e acontecimentos e convida a ampliar o seu relato! Este é um enredo possível... que tal ser parte das possibilidades que ora se abrem? Envie fotos e relatos para o Ekos de Minas e seja parte ativa desta memória (ekosdeminas@gmail.com).



ABREM-SE AS CORTINAS


Senhora e senhores expectadores-aprendizes, o Ekos de Minas tem a honra de apresentar um exemplo de trabalho, dedicação e amor. Quem inspira esta abertura é o emocionado depoimento da amiga Rosinha Fagundes, que dedicou doçura e palavras solenes para homenagear este brasileiro como tantos, que afirmou seus passos com trabalho duro e uma crença: “o maior capital de um homem é o seu nome!”. O ilustre personagem que oferece sua experiência e sabedoria para sublimar as palavras que compõem esta entrevista é o segundo filho do casal Francisco José de Almeida e Ernestina Mafra de Almeida: Mário de Almeida. Nascido no município mineiro de Nossa Senhora do Porto, no dia 28 de outubro de 1918, Mário aprendeu com o pai os primeiros passos para uma vida de muito trabalho no campo. O amor, ele descobriu com sua “Diva” (Diva Pires de Almeida), aos 33 anos. E assim começa a história...

O começo
Nasci na Fazenda, mas meu pai vendeu a propriedade e, com 18 anos, caí fora. Queria ir para a Bolívia para trabalhar, como alguns companheiros que foram para lá, mas não deu para ir. Então fui para Caeté, trabalhar no alto-forno de ferro gusa, na Gorceix. Trabalhava só com serviço ruim. Então eu adoeci, fiquei com Tifo, e dois primos foram me buscar em Caeté, Geraldo Pires de Almeida e José Pires de Almeida. O mais importante é a quem eles me entregaram para ser cuidado em Belo Horizonte: Dr. Odilon Bérens. Dr. Odilon passava para me visitar, e olhava a medicação para ver se estava tudo certo: - Não fala que estou olhando a medicação. Saí uns dias antes de vencerem os dez dias que meus parentes pagaram no hospital, estava doido para ir para uma pensão e fui, ficava na Avenida Santos Dumont. Cheguei lá e a pensão estava paga por uns dias e tinha dinheiro também se precisasse. Fiquei até me curar e voltei para casa.

Trabalho
Já na região, um amigo meu, Celino de Ávila, que comprava ouro e diamante, mas o negócio estava ficando muito ruim, me convidou: - Mário, não estou achando pedra, diamante, nem ouro, você entende de gado? Eu falei: - Mais ou menos. -Vamos comprar gado de corte para levar e partimos o lucro para três. - Pode partir até para quatro! Vamos embora! E começamos. Depois o negócio ficou meio ruim, paramos, e comprei uma mula boa no Rio do Peixe (atual Alvorada de Minas). Os poderosos me ofereceram vaca: - Fiado eu compro, não tenho dinheiro não! Comecei a comprar para pagar na volta. Levava e vendia em Datas, sempre trinta vacas e tinha um companheiro que me ajudava. Vendia a dinheiro para os garimpeiros. Foi indo até que arrendei um pedacinho de terra. Depois comprei a primeira fazenda e comprei mais fazendas. Dei uma para cada filho. Tudo do meu trabalho. Então comecei com aluguel de casa.

O amor
Namorei uma moça bonita pra danar, estava com 20 anos. Não aguentei e a pedi em casamento, depois eu vi que não dava mesmo para casar. Felizmente, ela arrumou outro namorado bom para danar e se casou. Fui noivo de uma e casei com outra, 12 anos depois, mas namorada eu tinha muitas. Casei em 1951, foram cento e tantos cavaleiros. Dançamos a noite inteira. Essa eu não esqueço, lembro tudo, tim-tim por tim-tim. Nem posso contar tudo! Com vinte dias de casado estávamos em Belo Horizonte, ela com um cachorrinho e eu com um Código Civil debaixo do braço. Com um ano veio o primeiro filho. Tivemos cinco filhos. Fizemos bodas de ouro. Vinha tudo muito bem, mas depois que a Diva morreu mudou tudo. É tanto que eu tenho que estar trabalhando, dormindo ou ouvindo música, pensando na vida, dá vontade de sumir também. Ela fica nas minhas vistas, não sai. Ninguém acostuma com a morte, viu. Nem ficando como eu fiquei,14 meses, cuidando dela, sabendo que ela ia morrer. Eu me lembro do pai dela namorando a mãe. Eu ia pensar que eles iam arrumar uma filha para eu casar com ela? Peguei-a, com 18 anos, namoramos e casamos no dia 31 de julho de 1951, eu estava com a idade de Cristo, 33 anos, e Diva com 19. Sabe por que 31 de julho? Ou casava em setembro ou no fim de julho, que em agosto eu não ia casar!

O pedido
Eu tinha um primo, Geraldo de Almeida, que já morreu. Eu pedi casamento para ele e ele pediu para mim. Ele trouxe a resposta e começou a me contar como foi lá. Está tudo gravado, não esqueço, não. O Chico (Francisco Pires de Almeida), pai da Diva, chamou a Ester (Ester Pires de Oliveira) e disse: - Geraldo está aqui, pedindo Diva em casamento que Mário mandou. E a Ester falou: - Ela gosta muito dele. Ele, se está pedindo, é porque gosta muito dela. Ela está com 19 anos, idade para casar, e ele já passou! Conhecia a Diva desde menina, quase na barriga da mãe dela, mas me interessei por ela uma vez, comprando gado do Chico, comprei caro pra danar! Quando eu vi a Diva pensei, não vai ter jeito não. Com seis meses de namoro, pedi em casamento.

O Serro
Formei uma fazenda no município de Sabinópolis, em 1946, Fazenda São José do Quilombo, e desenvolvi muito. Houve certa ambição, tal coisa e tal. E teve alguém que aconselhou os outros a me amolar e tive que contratar advogado, teve até policia, mas provei que não tinha nada. Pensei bem: - Eu aqui estou sendo meio invejado e isso é ruim. Troquei a fazenda de lá por uma no Serro em 1958. Eu não queria brigar com ninguém.

Caráter
O maior capital de um homem é o nome dele. O sujeito deixava de vender para um rico para vender para mim, quando era o caso. Trinta dias não são trinta e um dias para pagar. Nunca perdi dinheiro em nada! Estou aqui com 93 anos e ninguém aqui trabalha mais do que eu! Para os meus filhos não dou conselhos, dou exemplo. Faz o que eu fiz que vai dar certo. Trabalhar e andar direito. Não minto também não. Um homem não precisa mentir. Mas também tem uma coisa. Eu não esqueço o bem que me fazem não. Graças a Deus sou muito feliz com as amizades. Graças a Deus tenho que dizer que sou um homem feliz e realizado. Amizade ninguém tem mais que eu. Não posso sair a pé, custo a chegar ao fim da rua!


Mário e Diva em Lua de Mel na Capital


 

OBRIGADA! É PRECISO AGRADECER!

Maíra Buarque

É preciso dedicar breves sussurros a agradecer. Engrandecer, ampliar as orações aos domínios do infinito. Decifrar o caos na inércia imprecisa da recusa. Reconhecer a interferência, incongruência, independência das palavras impensadas, ditas ao acaso, amorfas, destinadas a padecer. Agradecer! Obrigada! Assim é preciso me referir à grata satisfação de sentir-me merecedora de um dos preciosos exemplares da obra dedicada à memória dos momentos e histórias que tangenciam incontáveis vidas. Elóquios: Memórias das páginas que não rasguei, de Feiz Nagib Bahmed, é obra digna de permanecer, como devem estar intactos na memória dos que puderam ouvi-lo, os ecos das intensas e bem coordenadas ideias de seus elóquios.
Agradecer este raro presente de qualidade editorial incontestável, brilhante compêndio de conhecimento e absoluto domínio dos recursos da oratória e de nossa língua mãe, instiga reflexões e crenças. Palavras insistentes invadem os breves espaços comumente ocupados por corriqueiras indagações. Insistem em inspirar a inevitável gratidão ao ser escolhida para percorrer os caminhos desta obra oponente e delicada.
As memórias deste grande mestre convidam a agradáveis passeios por Belo Horizonte, cidade que acalentou meu berço e acompanhou meus passos até que alcancei a firmeza de caminhar para os meus sonhos. E ainda assim, encontro o inédito em seus relatos, uma BH que não vivenciei, na efervesceste Pampulha de outrora, nos espaços gentilmente cedidos em grandes avenidas para footings, encontros e bem-viver.
A Vila do Príncipe se mostra em todo seu esplendor, retratada na riqueza dos personagens nascidos nesta terra, que doou seu opulente brilho dourado à coroa portuguesa e, quando as jazidas minguaram, despertou o inexorável rútilo de seus filhos para Minas Gerais e Brasil.
Nas suas palavras encontro este Serro que o acaso me apresentou como futuro e onde recebo o privilégio de apreender a indelével arte de viver o cotidiano das pequenas cidades.
Este Serro que não é mais do ouro metal, guarda em seu legado grandes personagens históricos e admiráveis cidadãos e cidadãs contemporâneos que revivem e reascendem a vocação serrana de doar filhos ao país e inspiram a intenção humana nas artes, letras, política, economia, sociedade, religião em tantas caminhadas pelas Minas Gerais, Brasil e limites além mar.

A HISTÓRIA QUE REGISTRA O OLHAR

No espaço, a partir do tempo, desatino, afino, inclinação, assim se define o olhar. Com ponto ou sem ponto final, as palavras insinuam sua aplicação, encontram momentos de intempéries e ressacas para indicar vontades, anseios, reflexões. O olhar saciado se entrega ao que não vê. O olhar desavisado encontra. Olhar, gostar, deleitar, adorar, abre-se aqui o espaço para o que se vê.
Nesta edição, o Ekos de Minas apresenta uma das delícias do verbo ver, a obra do artista serrano Magno Zeó - a história de Magno Wanderlei de Figueiredo, artista de sensibilidade excepcional, é um estímulo à composição e um desafio para as próximas edições deste periódico.
A pintura é uma encomenda do amigo Lúcio Flávio Reis Simões. «Saíamos bicudos do Bar do Nondas, e pedi ao Maguinho que pintasse um quadro do Serro com o caminho do bar à minha casa e os pontos marcantes da nossa adolescência: o Colégio (Nossa Senhora da Conceição), a (Igreja) Santa Rita, a Pedra Redonda e as pipas», conta Lúcio.
O quadro foi pintado em 1994, e atendeu à encomenda de Lúcio Simões, observando o percurso do Bar de Nondas (Restaurante Vila do Príncipe), então instalado na Praça Dom Epaminondas, à casa de seus pais Rômulo e Carmosina Simões, na Rua Fernando de Vasconcelos.